Welbert G. Neves entrevista Marina Lima

Esta pequena entrevista que eu fiz com Marina, foi um projeto idealizado por mim, para um trabalho pra Faculdade (estou cursando Comunicação Social/Publicidade e Propaganda).

Marina já ingressou na MPB contrariando manifestos e espanando o tédio que esfumaçava a música nacional.

Em meados dos anos 80, desconsiderando o quadro reinante, no final da Ditadura Militar, compõe – sempre em parceria com o irmão Antonio Cícero –, e canta músicas transgressoras, que destoavam do conformismo em que mergulhara nossa música.

Com estilo próprio, voz rouca e inconfundível, Marina lança seu quinto disco, “Fullgás”, o qual seria transformado em ícone daqueles tempos, tendo proporcionado interpretações dúbias, mas para ela com um sentido particular.

Já naquele momento, Marina não se importava de revelar que suas músicas estavam ligadas intimamente à sua vida, amores e passatempos. Sempre viveu o que se diz em público, através das canções.

“Fullgás” trouxe ótimas surpresas, todas afinadas, ou proporcionadas, pelo estado de graça em que ela vivia.

Afinada com outros cantores da música jovem brasileira de então, Marina recheou o disco de sintetizadores e recursos eletrônicos, e, num extremo incomum, utilizou uma bateria eletrônica em todas as faixas.

Naquele disco, Marina cantou com maior vontade, e, não de propósito, inovou a música romântica, encontrando sua medida própria para cantar o amor, por ela homenageado com simplicidade, como faz em “Pra Sempre e Mais Um Dia”, ao cantar: “Ninguém no mundo faz o que ele me faz / Tanto romance, tanta graça e pornô…”. São palavras simples, que soam naturais na voz sensual de Marina.

Já foi dito que a cantora não cai na banalidade ao cantar paixões, nem se derrama em lamentos ao relatar romances malsucedidos. Ela arrebata pelo bom gosto, pela leveza de sua interpretação, pela entonação certa conferida a cada frase ou imagem.

“FULLGÁS” – O DISCO

Representativas do momento feliz vivido pela cantora, destacamos no disco “Fullgás”, além da música que lhe dá o título, “Pra Sempre e Mais Um Dia”, ambas de Marina Lima e seu irmão Antonio Cícero, e as releituras de “Me Chama”, de Lobão, e “Mesmo Que Seja Eu”, de Roberto e Erasmo Carlos.

O título da primeira música foi a maneira que a cantora encontrou para desafiar àqueles que a rotularam de americanizada, por introduzir uma nova sonoridade na música popular brasileira.

Marina e Antonio Cícero foram criados nos EUA e não podiam deixar de serem influenciados pela cultura daquele país.

Cícero havia sugerido o verso “tudo em você é fugaz”. Imediatamente, como ela explicou em entrevista exclusiva concedida para este trabalho, pensou em fullgás, que significa um tanque cheio.

FULLGÁS é um moderno e belo hino ao amor, em que pese sua simplicidade.

De fato, de modo peculiar, Marina canta o amor e confessa que a pessoa amada é a razão de seu mundo viver plenamente abastecido de música, letra e dança; um “tanque cheio” de felicidades, que não esvaziaria enquanto juntos estivessem.

Afirma que o amor é o responsável pelo melhor dela e que ela estaria onde estivesse o objeto de seu amor.

E ali, sem importar onde, quando se encontrassem, a plena felicidade transformaria aquele lugar no seu país.

Em PRA SEMPRE E MAIS UM DIA, Marina volta ao mesmo tema, reafirmando o seu amor por alguém que a completa, que lhe dá segurança e razão de viver.

Novamente há referência ao encontro dela com a pessoa amada. E, agora, quando ele acontece, transforma o lugar em que estão, numa ilha de propriedade exclusiva dos amantes.

Outra vez, coloca naquele alguém a razão da sua vida presente e futura.

Embora não tenha feito a letra, Marina gravou ME CHAMA por sua familiaridade com o tema, ou seja, a necessidade da presença do amado para sua segurança nos momentos difíceis.

Desprezando opiniões, Marina, ousadamente, regravou a música MESMO QUE SEJA EU, gravada anteriormente por Erasmo Carlos.

No ano anterior, Ney Matogrosso gravara “Telma eu não sou gay”, afirmando, jocosamente, que havia mudado; que os rapazes que o acompanhavam eram “apenas bons amigos”.

Por sua vez, Marina, musa do seu tempo, na sua interpretação, desafia os preconceitos, acentuando os últimos versos da canção, que dizem: “você precisa de um homem pra chamar de seu, mesmo que este homem seja eu…”.

Observa-se na letra a volta ao tema recorrente da cantora: a salvação pelo amado.

A  ENTREVISTA

Welbert: Marina como surgiu a idéia de fazer um disco mais “eletrônico”?

Marina: Surgiu porque eu estava começando a gostar de arranjar um pouco mais as minhas canções. Na época (anos 80) tinha saído um teclado chamado Cassiotone MT. Era um tecladinho assim pequeno, com uns sons diferentes e bateria eletrônica. Isso me fez compor um monte de coisas, já com uma levada de guia. Me deu uma sensação de independência enorme, ter as levadas pré-programadas, com sons mais secos,enxutos.

W: Como foi gravar um disco quando ainda vigorava a censura?

M: Foi ridículo (risos). Não estava mais na época da ditadura, mas ainda havia alguns resquícios… Uma situação ridícula, tanto que nem disfarçamos: paramos a música (“Mais uma vez”, do Lulu Santos e Nelson Motta) no momento exato que entrava a palavra Tesão, censurada. A gente não quis substituir por nada, ficou aquele silencio no meio da música… engraçado (…) Eles censuraram o tesão deles, mas não o meu.

W: Qual a mensagem que você quis passar quando compôs a música “Fullgás”?

M: Quando o Cícero sugeriu “tudo em você é fugaz”, na mesma hora pensei em “fullgás” – uma pessoa de tanque cheio. Nós moramos, meu irmão e eu, um tempo grande nos EUA; volta e meia nos acusavam de americanizados… Pegamos essa música ‘Fullgás’ para mostrar que não sofríamos de ágorafobia; a gente pertencia ao mundo todo mesmo. Nascidos no Brasil, mas sem raízes nem cercas. Nós tínhamos antenas. Esse era o espírito da música ‘Fullgás’.

W: Marina, para encerrar, faça uma interpretação pessoal da música “Fullgás”?

M: Acho que foi a minha primeira grande música de pista (risos). Ela pintou numa época onde não havia uma sonoridade realmente pop, ela meio que implantou isso, de uma forma mais explicita do que vinha sendo feito. Embora o Renato Russo achasse que eu fosse uma artista de rock, “Fullgás” foi uma música bem pop pra época.

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