Revista ‘HOLA! Brasil’

Revista Hola! Brasil (em 05 de novembro de 2010)

“Marina Lima – A mais cool das cantoras fala sobre sua vida e seu novo trabalho” 

Há quase dois meses, quatro novos moradores de Higienópolis acrescentam ainda mais charme ao cultuado bairro paulistano. O curioso é que todos os cariocas, não sentem falta da praia, muito menos entram na cansativa rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ao contrário, estão adorando a diversidade e os meandros da capital. Eles são os poodles Pedro, Maroca e Carola, cuja dona é a cantora e compositora Marina Lima. “É uma família. Pedro e Maroca são os pais, e Carola, a filha. A quarta cachorra sou eu”, diz, às gargalhadas, enquanto passeia pela Bienal.

Com tamanho bom humor e leveza no semblante, nos gestos e na fala, Marina dá indícios de que passa por momentos de tranqüilidade, no alto dos 55 anos assumidos, sem problema nem causa que os denunciem na sua pele alva. “Eu sempre me identifiquei muito com São Paulo. Há muito verde e isso me faz lembrar de Washington D.C, onde morei dos 5 aos 12 anos. Até voltei a falar mais inglês”, afirma.

Seu olhar atento ainda aponta outras qualidades locais, às vezes invisíveis para quem nasceu ou já vive na cidade. “Como São Paulo não tem mar, não tem praia, todo mundo cultiva e trata muito bem das árvores das ruas. Eu moro em frente a um parque cheio de árvores”, conta. “No Brasil, sempre recorro a São Paulo para tentar melhorar, profissionalmente, alguma coisa em mim”, diz a carioca. Na verdade, desde 1998 a autora e intérprete de “Pra Começar” ensaia uma mudança para a Paulicéia. À época, já fortalecida após uma espiral de problemas pessoais, trocou de empresário, de gravadora, se separou da antiga paixão e, mesmo curtindo um novo apartamento no Rio, de cujas janelas se descortinava o Corcovado, aproveitou o turbilhão para encerar noivos aprendizados.

Por dois meses, se aboletou num hotel da capital paulista e mergulhou nas aulas de um curso sobre linguagem digital, que estabelece a comunicação entre computador e sintetizador.

Os resultados notam-se no álbum “Pierrot do Brasil”, lançado em julho de 1998, e nos discos posteriores, “Síssi na Sua – Ao Vivo” (2000), “Setembro” (2001) e “Lá nos Primórdios”, seu mais recente, 2006 – no meio do caminho teve o “Acústico” (2003). “Meu trabalho é solo. Então, o advento do computador facilitou muito a minha vida. Aonde eu vou, eu levo, crio arranjos”, afirma. “Mesmo que depois tenha de passar as coordenadas para os músicos da banda, eu consigo traçar a espinha dorsal das canções no computador. É uma coisa econômica”, analisa.

Neste momento, Marina está sem gravadora. Por conta própria, pretende gravar e bancar os custos do próximo CD pela sua produtora Fullgás. Previsto para 2011, o disco já conta com seis canções inéditas prontas. “Terá um pouco de tudo, mas não foi proposital. É que eu abraço várias vertentes”, sintetiza. “Um lado meu gosta de bossa nova, de Elizeth Cardoso, por exemplo”, diz, lembrando que seus pais adoravam esta última: “Fui criada ouvindo os discos da Elizeth. Até ao velório dela eu fui para vê-la pela última vez”.

Além da admiração pela cantora de “Canção do Amor”, Marina fala da paixão pelos Beatles e por outros nomes do pop e do rock internacional. “Também fui contemporânea do tropicalismo. No final, há uma série de coisas que transformei numa sonoridade minha, que pode parecer com o Rio ou pode ser a cara de São Paulo. Cada um traduz como quiser. Mas é um som meu”, afirma.

Enquanto cuida da gestação do novo álbum, Marina tem se aventurado de carro por São Paulo e já decodifica alguns bairros e ruas. “Eu gosto da maneira como as pessoas vivem. Combino um jantar e ninguém cancela”, diverte-se. Para ela, o maior programa que existe é encontrar os amigos, jantar fora, conversar e tomar um vinho. “Isto é mais raro no Rio. Lá, as coisas são muito pautadas pela praia. Ou é algo bem descomprometido de balneário ou de luxo. Eu encontro a média disso em São Paulo, com comer uma pizza ou sair para uma balada numa quarta-feira”, diz.

Por não ser um lugar de fácil adaptação e que precisa ser descoberto para agradar, supõe-se que a cantora ainda esteja desencontrada nos contrastes paulistanos. “Mas isso é bom. É como morar no estrangeiro e falar a mesma língua”, compara. E diz que não tem pressa. “Não vim passar um ano, nem dois, a não ser que aconteça algo que eu não esteja esperando. Além do que São Paulo, Rio ou Salvador são cidades minhas. Sou brasileira, o país é meu”, sentencia.20

Era de se imaginar que Marina já tivesse começado uma batalha contra a balança, que tantos outros mortais travam ao mudar para uma cidade farta em opções culinárias. Que nada, Marina continua com os mesmos 53 quilos mantidos por uma disciplina autoimposta desde os 20 anos. Não deixa de malhar e, à mesa, segue regras quase imutáveis. Pela manhã, seu cardápio constitui-se de café com leite, duas torradas integrais e mel. No almoço, arroz integral, salada e carne. Durante o dia, alimenta-se a cada duas horas. “Não sei cozinhar, mas me cerco dos melhores”, afirma. “Trouxe a minha assistente do Rio, a Célia, excelente cozinheira. As mudanças instigam a gente ás novidades”, acredita.

Em sua nova fase, bem-falante para quem sempre se escondeu na timidez, Marina também aderiu à agilidade do Twitter. Parou com seu blog por causa do acúmulo das tarefas, mas adora papear por e-mail. “Tenho ficado muito só. No momento não estou casada, então permaneço no meu mundo, no mundo virtual, criando, compondo”, diz. De vez em quando, fala ao telefone com o irmão e parceiro, o filósofo e poeta Antonio Cícero. Por um tempo, chegaram a dizer que eles haviam rompido. “Não houve briga. A gente se afastou por vários motivos. Cada qual foi procurando seu caminho, sem precisar estar um atrelado ao outro. Nunca paramos de nos encontrar, falar”, enfatiza. “Primeiro, perdemos nosso pai. Agora, nossa mãe, há quatro meses. Éramos três irmãos. O do meio morreu do coração, como meu pai. Restamos Cícero e eu. Não dá para ficarmos separados”, diz.

Anos atrás, Marina Lima, em outro instante de vida, acreditava que ser feliz era um acontecimento raro. Hoje, a diva cool – que tão bem traduziu em música o universo da paixão e do desejo – afirma que talvez consiga manusear com destreza o controle remoto da felicidade. “Olhe, se eu aplicar bem as leis espirituais da cabala, eu acho que sim, viu? (risos).”

  

(por Apoenan Rodrigues)