Oscar Vasconcellos entrevista Marina Lima

Marina Lima consegue aliar dois fatores que me impressionam e causam enorme admiração: jovialidade e maturidade. Conversamos no estúdio onde ela está ensaiando com sua banda para colocar o sofisticado e elegante “Setembro” – cd que acaba de lançar, 16º da carreira, arranjado e produzido por ela e Edu Martins – na estrada. Marina está inteira. Corpo e alma. Sem cortes ou excessos. Música, letra e dança. Pronta para reconquistar o seu lugar. Pelo brilho intenso e sincero que traz nos olhos, e a contagiante energia positiva que ela passa, fica claro que Marina vai chegar onde quer. Simples como fogo? Sempre.

Edu Martins, Oscar Vasconcellos, Giovanni Bizzotto,  Gustavo Corsi, Cuca Teixeira, Marina e Pepe

Oscar Vasconcellos: Depois da crise, que você superou, eu queria saber o que você tirou de aprendizado. O que ficou de bom dessa história?

Marina Lima:  Olha,  o  que restou,  fui  eu.  O resto tudo era falso (risos).  Eu estou brincando com isso, mas o que ficou foi a minha essência. O que merecia e valia a pena ficar. O que acontece, é o seguinte, é um privilégio para mim trabalhar com música. Poder pensar nisso, sem ter culpa, o dia inteiro. Sem ficar pensando: “ai meu Deus, tô aqui perdendo meu tempo”. Não, não é um hobby. Eu pude transformar isso no meu ganha pão. Só que… Eu estou aqui por causa da música, se eu tenho um destaque, sou conhecida, é por causa da música. E de repente, às vezes, na carreira, quando você está ainda sem saber o que quer direito e tal, parece que o que menos importa é a música. O mundo é muito visual, é muito ligado em imagem. Cada vez mais. Agora com a internet também, né? Imagem meio que decifra tudo. E o meu trabalho é muito ligado em essência. Então eu comecei a me sentir meio atropelada por tantos compromissos, e coisas que pareciam que eu não cabia. Quando eu fiquei esse tempo em silêncio, e quieta, eu comecei a entrar em contato com a minha essência pura. “Por que eu estou aqui mesmo? O que me trouxe aqui? Por que é que eu fiquei conhecida?” Foi tudo a música.

O: Foi um reencontro contigo mesma?

M: Foi. Um reencontro, na realidade, comigo e logo depois com a música. Porque desde que eu sou muito nova eu tenho uma relação muito especial com a música. E é isso, eu não posso levar as coisas além de um certo ponto, assim, que é o meu “termômetro”. Se eu levar mais, eu estou fazendo mais do que posso, aí eu fico mal. Melhor respeitar, que todo mundo é mesmo comum, todo mundo é fraco, e a gente tem limites.

O: Cada um tem seu “timing”…

M: É, e não adianta você achar que tem que dar conta dos anseios e demandas de tudo, porque às vezes não dá. Eu tive que parar pra entender isso.

O: Depois dessa parada, como foi voltar aos palcos?

M: Foi um desafio, cara! Porque a gente nunca está “pronta”, né? Mas o que faz, eu acho, você ter coragem de começar, é o desejo. É a vontade. Quando eu me afastei eu não tava com vontade mesmo, eu estava meio brigada com a música. Eu perdi a música dentro de mim. A realidade é essa. Por que é que eu tinha que cantar?

O: Que “obrigação” é essa, né?

M: É, se tornou uma “obrigação”,  estava parecendo uma obrigação…  Eu já achava que nem gostava mais disso. E eu adoro isso! E foi um desafio voltar, porque às vezes, não estando “pronta”, a gente vai se aprontando na frente dos outros também. Porque é um crescimento, e é assim que é. Você nunca está “pronto” na realidade. Você pode estar pronto num ponto, mas adiante você vai ver que não estava, entendeu? Então tudo isso foi bacana, porque eu também estava com medo de não ter força. E decepcionar os outros também, né? 

O: E você teve surpresas nesse retorno?

M: Eu tive boas surpresas… Não vou dizer que foram “surpresas”… Eu descobri que sou forte de novo (risos)! Isso foi uma boa surpresa! Né? Descobri que eu sou corajosa, e descobri uma série de coisas, até por ter que passar por esse desafio. O medo é meio assim, quando você não sabe se vai dar certo ou não. Mas, se você é forte e tem um astral bacana, geralmente dá certo.

O: Tem que estar disposto.

M: É geralmente dá. Então foi bacana, eu tive boas conclusões daquele período. Essa banda que eu montei, por exemplo.

O: É a mesma banda do outro show, o “Síssi”?

M: É a mesma banda, e foi ela que me ajudou a voltar. E não foi à toa que eu escolhi. São pessoas que são muito bons músicos e muito interessantes também. Todo mundo tem uma profundidade ali, todo mundo tem um “quê” de artista mesmo. Todo mundo é criativo. Então são pessoas que eu respeito. É bom estar no palco com essas pessoas.

O: Eu lembro de uma declaração, após um show na Baixada para milhares de fãs, que você dizia estar surpresa e feliz com o fato do seu som alcançar aquelas pessoas…

M: O que aconteceu foi o seguinte, eu fiquei ausente seis anos, sete anos do palco, e o Brasil ficou mais pobre. O país já é pobre, ficou mais pobre ainda. Então tudo é mais imediatista, porque as pessoas precisam de dinheiro e de retorno rápido. De certa forma, o tempo em que eu me ausentei, por um lado, a música caiu muito de qualidade. Várias coisas surgiram. São coisas que nos colocam em contato com a realidade social da periferia do Brasil. Por isso são tão importantes. O “rap”, o “hip hop”, o “funk” falam de periferias que eu, por exemplo, que moro na zona sul não tinha muito conhecimento. O samba já não é… Tem coisas mais fortes que o samba.

O: O samba se tornou meio superficial também.

M: O samba ficou mais classe média, mesmo sendo do morro. Mas agora a voz do morro é o “rap”, o “hip hop”, o “funk”. Então muitas coisas aconteceram, que são legais, mas também muitas coisas que são descartáveis. Eu passei um tempo enorme ausente, e eu achei que as pessoas talvez não lembrassem de mim. Eu sou uma pessoa humilde, não sou convencida. Para mim é importante eu me sentir querida. Mas quando eu estava triste, me sentia muito só, quando eu estava com depressão. Uma coisa de solidão. Voltando, eu achei que a banda gostava de mim, minha empresária gostava de mim, a família… Mas eu achei que não fiz muita falta. Ninguém falava de mim, ninguém nem perguntava. Achei que não fiz falta. Realmente houve isso, surgiram muitas pessoas descartáveis, que são sucesso fácil, e as pessoas também que querem ser felizes. Também não podem ficar com a vida barra pesada, já sem dinheiro, sem grana e sem poder dançar, então é compreensível. Falei: “bom nessa altura ninguém mais lembra de mim”. Quando eu fui fazer esse projeto do SESC, que eu fiz Nova Iguaçu e Madureira também, e que iam 12 mil, 15 mil pessoas – eu fico emocionada com esse negócio – que conheciam minhas músicas todas, e até umas músicas do disco novo, o “Síssi”. “Nooossa!” Aquele foi um dos shows mais fortes pra mim. Os shows mais fortes foram os que eu fiz com contato direto com o povo. Teve um show que eu fiz na praia, de graça. Porque, eu nunca achei que meu trabalho não fosse bom, eu comecei a achar que ele não tinha importância. Era bom mas sem importância, parecia. Mas saber que ele tinha importância para muita gente, e pessoas que eu não conheço, e, aparentemente, com vidas completamente diferentes de mim, me trouxe a certeza de que eu sou uma pessoa comum mesmo. Tudo bem, eu tenho o dom da música, mas o que eu falo, muita gente entende e aquece muita gente. Então tinha importância! Eu tive a certeza de que – nossa! – então é só de novo ir atrás e “olha eu voltei!”. É só eu chegar nelas. 

O: Antes do início da turnê, você fez uma participação especial no show da Ana Carolina no ATL Hall. Como foi isso e como pintou o convite?

M: Foi o seguinte, eu estava montando a banda para ensaiar o “Síssi na sua”, não tinha nem o nome ainda. Mas não virou esse nome à toa, é engraçado: “Síssi na sua”! Uma pessoa de Niterói que tinha essa expressão, um cara que trabalha como meu “boy”, Marcelo. Eu dizia: “Como é que tá a Carola?” – minha cachorra. E ele: “Tá síssi!” (Risos). Mas então eu já estava querendo voltar, cantar, ensaiar e tal. Um dia toca o telefone, a empregada falou: “Dona Marina, Ana Carolina”. Eu falei, deve ser a cantora, eu não conheço nenhuma outra Ana Carolina. Fui atender. Me lembro inclusive que eu estava na sala tocando uma guitarra, com tudo ligado em casa, amplificador e tal. Eu tinha visto um show dela na Barra, e na realidade não foi nenhuma música que me bateu não. Eu gostei dela no palco, achei que ela tinha uma coisa muito própria. E fui falar com ela no camarim – isso antes dela me ligar – e ela: “Ah, vamos compor!” Eu achei graça. Um dia ela ligou: “Olha eu vou fazer um show no Rio, num lugar grande, querem que eu convide alguém para cantar comigo, e a pessoa com quem eu tenho vontade de cantar é você”. Falei: “eu aceito!” Ela fez: “Ééééé?” Disse: “Aceito. Vou pensar numas músicas que eu acho que tem a ver, quantas seriam?” Eram duas ou três. Peguei o telefone dela, pensei, liguei, ela achou bacana, e um dia ela foi ao meu ensaio. Outro dia eu fui no ensaio com a banda dela. Ensaiei e cantei, foi fácil na realidade. Porque eu achei que ela estava sendo sincera e eu admirei que eu vi. Gostei do show dela.

O: A releitura do Lulu Santos para “Fullgás”, mexeu contigo, ou te instigou de alguma forma? Porque tem muito a ver com a sua nova fase, não?

M: Mexeu. Me instigou, pelo seguinte, quando eu surgi, meu trabalho era muito moderno naquele momento no Brasil. Havia um trabalho de música popular, não tinha música “pop”. Que é uma música mais jovem. Então, acho que eu meio que introduzi isso. Lulu Santos depois. Dalto veio antes, com uma coisa meio “pop”. Então  todo  mundo  que fazia alguma releitura de música minha, eram pessoas que faziam de uma maneira mais convencional. Eu achava legal,  o  esforço  e  até  por  reconhecerem  que eu compunha bem, ficava grata, mas as regravações não me surpreendiam. Eram visões mais simplistas.

O: Não acrescentavam?

M: Eram visões mais acadêmicas, mais MPB. Até o momento em que ele gravou “Fullgás”. E ele gravou como eu gravaria se fosse ele, entendeu? Ele arrasou! E claro tinha que ser um cara na minha praia, para entender mais ainda o que eu queria dizer. Eu tenho uma irmandade aí com Lulu, de geração e de uma admiração mútua. Eu acho que ele é um puta compositor. Me lembro que a primeira vez que eu ouvi, eu estava no Shopping da Gávea, e estava tocando “Adivinha O Quê” no “speaker” de uma loja, aquele negócio “…só gosto com você…”, eu ouvi e falei: “que cara de pau essa música!” Mas que coisa boa. Era irresistível. Era cínico, mas era bom. E eu não sabia quem era. Foi aí que eu conheci o Lulu. E comecei a prestar atenção nesse lado dele, ele toca, é muito bom em show, mas ele tem umas sacações legais de composição. Foi por aí, e a gente sempre se telefona de dois em dois anos, e um comenta o trabalho do outro, uma relação bacana, de geração mesmo.

O: E o novo show, “Setembro”? Está muito diferente do “Síssi”?

M: Não está muito diferente não. Tem a ver com tudo que eu estou te dizendo. Eu descobri, primeiro, que as pessoas estavam com saudades, e que elas querem também ouvir outras músicas antigas. Elas pedem. E eu acho que eu tenho uma função no Brasil, essa coisa que eu te falei, meu trabalho é muito bom, mas pra quê? É importante ter? É importante ter. Eu trabalho com cultura popular. É o que eu gosto de fazer. Eu poderia, como eu estudo, sei lá, virar uma coisa erudita. Meio Egberto Gismonti, sabe? Mas eu sou uma cantora brasileira, trabalho aqui, não na Suíça. Então tem que ser um show, que seja sofisticado de uma maneira muito simples, não é para ficar “racée”, não uma coisa burguesa. Uma música que seja brasileira, de um jeito que eu gosto, “pop” sofisticado. Ao mesmo tempo ela tem que tocar as pessoas do Brasil. Eu faço show às vezes no interior do Pará, e quando eu estou lá, com aquele público de Paraopebas, ele foi me ver e eu estou a fim de me comunicar com aquelas pessoas. Então se eu fizer um show todo “moderno”, as pessoas não vão entender. E as pessoas querem, elas querem ser tocadas, e eu estou a fim de ocupar o meu lugar de novo no Brasil. Então é um show que tem um pouco do meu conceito musical – claro que vai ter sofisticação, porque eu gosto disso! Mas eu sou brasileira. Moro aqui, eu lanço o que acontece aqui e tudo me interessa. O “axé” me interessa. Acho que essa célula rítmica é muito importante para o Brasil. Introduziu um ritmo novo, brasileiro. Harmonicamente é muito ruim, muito pobre, mas ritmicamente não. Tudo isso e eu estou aqui, estou vendo, entendeu? Eu tenho essa ambição de fazer um trabalho que chegue nas pessoas mais simples também. Porque música, cara, é o inconsciente coletivo!

O: “Setembro” foi o seu disco mais rápido?

M: Foi o mais rápido, mas também porque eu estou mais competente. Eu venho estudando. Antigamente eu tinha que passar muitas coisas que eu queria para música, hoje em dia eu posso programar algumas coisas no computador. Eu posso chamar um cara para produzir, ou co-produzir comigo, e mostrar as demos, falar: “olha, essas são as músicas”.

O: Você já compõe direto no computador?

M: Componho. As músicas de “Setembro” todas foram feitas assim. Desde o “Pierrot do Brasil” eu venho fazendo isso. “Deixa Estar”, “Uma Antiga Manhã”, “Sua”, aquela que eu fiz com Sérgio Brito…

O: “Leva (Esse samba, esse amor)”…

M: É… Ele mudou, essa música se chamava “Japa”. Era o apelido que eu tinha botado. Eu sempre esqueço o nome por causa da letra. Por que eu fiz a música, ele fez a letra. Mas assim, quatro ou cinco músicas eu tinha feito no computador. Porque eu tinha feito um curso e já estava louca para trabalhar com isso. Para compositor, que não faz parte de uma banda… Eu agora tenho essa banda, que é um pouco a minha banda, o Edu (Martins) é um cara que… A gente trabalhou muito juntos, mas a minha carreira é meio solo. Quanto mais eu souber dominar essas coisas, melhor para o meu trabalho. Melhor eu posso expor ele. Não vou deixar de querer músicos. Sempre vai ter gente tocando alguma coisa que eu não sei tocar para realizar meu som. Mas o “esqueleto”, quanto melhor eu puder mostrar, melhor.

O: Você ainda recorre ao violão?

M: Porque é um instrumento, né? Nesse disco, a música “Setembro” eu compus uma parte no violão e uma parte no teclado. Mas “Dois Durões”, “No Escuro”, “Paris-Dakar” e a música que eu fiz com o Dalto (“Notícias”), foram todas feitas no computador.

O: O seu contrato com a Abril Music, você considera uma conquista?

M: Considero. Cara eu sou amiga do presidente da gravadora. No sentido de que eu faço o que eu acho que tem que fazer. Tem uma relação bacana, a gente é livre. Ele não me  comprou, eu não comprei ele. Combinamos que eu ia fazer um disco, na minha casa. Acho que ele está trabalhando super bem o meu disco. Há muito tempo que eu não me sinto assim, tocando no rádio e com anúncios em lugares.

O: Antes mesmo do disco chegar já havia uma boa divulgação para o lançamento…

M: Pois é! Uma gravadora que acredita no meu trabalho. Brasileira, pequena, mas aqui não é a filial de uma matriz que fica na Europa. Aqui é a matriz! E eles estão a fim de arrebentar, porque aqui é o que eles querem, eles conhecem o mercado. E eu estou contente com a gravadora. Estou feliz também porque, eu tenho uma editora, a Fullgás, mas ela  era  administrada  por  outras  editoras, e  eu  pagava um percentual para isso, agora que eu entrei para Abril, ela vai administrar minha editora. Achei bacana.

O: Pelo seu selo, “Fullgás”, você lançou a Cris Braun. Hoje como está?

M: Lancei. Eu já tinha a editora e a produtora que se chamam “Fullgás”. Quando eu retornei para Polygram eu falei que queria ter um selo. Porque eu achava que o meu trabalho não interessava, pensei que talvez fosse um problema comigo, e se eu lançasse pessoas que eu achasse interessantes poderia ajudar. Eu estava testando. Aí a Cris me mandou umas fitas, e eu a contratei como cantora. Só que a Cris queria compor. Então ela fez o disco como ela quis. Eu não concordei, mas tenho que respeitar a artista. Então o disco não rolou muito, foi aí eu descobri que não estou ainda pronta para ser patroa de artista (risos). Eu sou muito artista para ser dona de selo. Porque os artistas não querem obedecer ninguém, e isso eu tenho que respeitar. Se eu for ter uma gravadora, eu vou à falência e vou levar junto quem for bancar a gravadora. Eu não sei mandar em artista, eu respeito os artistas. É difícil isso…

O: E sobre o Lobão. Vocês praticamente começaram juntos, ele era baterista da sua primeira banda, você inclusive cedia espaço durante seu show para ele cantar…

M: Acontece o seguinte, a gente ficou amigo. Eu fico amiga dos meus músicos, adoro música. E eu sou uma mulher, hoje em dia até tem, mas antes mulheres não se interessavam muito por música, eram só cantoras, não tocavam, coisa que eu sempre gostei muito. Então acabava compondo com as pessoas com quem eu tocava. Ele começou a me mostrar umas canções dele, eu mostrava umas minhas e começamos a compor. Ficamos amigos mesmo. O Lobão quando se separou foi morar na minha casa. Uma relação fraternal. Nunca namoramos, não. Eu gosto muito dele, e… A gente tem um trabalho meio que paralelo, é coisa de geração. Na época do “Pierrot do Brasil”, ele foi lá em casa e me mostrou umas músicas. Eu ouvi. Mas não bateu, entende? Não sei se ele ficou chateado… Até falei uma vez pro Pedro Alexandre (Folha de São Paulo): “Porra, Lobão é do caralho só que eu acho que ele não está compondo à altura que ele pode!” Não sei se o cara falou isso pra ele… Mas eu falei um pouco pro cara falar mesmo, porque eu achava que ele tinha que compor melhor. Aí cara, dois dias antes do carnaval eu liguei a televisão e estava passando um clip de uma música dele chamada “Universo Paralelo”. Cara… Além de achar o clip lindo, eu achei a música linda. Aí eu comecei a ligar pro Lobão, falei com a mulher dele e tal, e nunca mais o cara me ligou (risos)! Então o Lobão está compondo bem ultimamente, isso que eu queria te dizer (risos). Voltou a compor bem.

O: O que você acha da iniciativa dele, de criar um selo “Universo Paralelo”, vender o cd em banca de jornal e ter um excelente retorno?

M: Isso é uma prova da força dele! Acho um barato e fico feliz porque eu não gosto das pessoas à toa. Lobão aparentemente parece que é irreverente, ele não é irreverente, não, ele tem uma filosofia que tem um quê de anárquico, mas nem é isso, é a escala de valores dele, é o que ele acha mesmo. Uma visão grega dele, do mundo, que tem um embasamento. Eu entendo e gosto dele. Não adianta, ele é um cara que ninguém vai calar. Ele aparece, faz as coisas, divulga em rádios clandestinas, ele é um cara querido. Lobão quando foi preso, abordou cedo a questão das drogas e não tem medo das polêmicas, de assuntos que de alguma forma podem vir a ter conseqüências que podem prejudicá-lo. Ele não tem medo, é um cara corajoso, questiona o sistema.

O: Ele defende o que acredita, né?

M: É, e é um direito dele.

O: Você deu uma parada de seis anos, existe um público que está te descobrindo agora e não tem acesso aos seus primeiros discos, praticamente todos fora de catálogo. Qual sua opinião sobre isso?
M: Sabe o que acontece, cara? Foi por essa razão que deixei a Universal.

O: As coletâneas?

M: Sabe por que? Porque se neguinho queria ganhar dinheiro, lança um disco. Quer mais dinheiro? Lança outro disco sem você saber, por trás. Se querem mesmo ganhar em cima de você, por que não relançam os primeiros discos? Por que não remasterizam? Por que? Porque não respeitam a carreira. Você é uma mera fruta de uma feira, que na semana seguinte já não serve para eles. Por isso que eu fico puta! Não tem grilo, eu topo as coisas, se eu achar que tem um sentido, se vai ajudar a divulgar meu trabalho. Eu topo. Agora, ficar fazendo coletânea? Todo disco tem um sentido, uma afirmação para aquele momento. A ordem das músicas, a letra que é usada, as fotos que foram escolhidas, o que está escrito dentro. Aquilo é uma apresentação. Como se fosse um livro, tem o primeiro, segundo, terceiro capítulo… Nada ali é à toa. “Ah, tava ali quando eu vi…”, meu trabalho não é assim. Estava ali por eu quis, hoje posso até achar alguma bobagem, mas quando fiz, errei acreditando. Aí chega uma pessoa, coloca uma capa, começa com uma faixa depois pula para quatro anos antes, não tem pé nem cabeça! Fica essa inconsistência, o samba do crioulo doido, sabe? Não estou a fim! Por isso saí de lá.

O: Você em 1995 lançou “Abrigo”, com músicas de artistas novos além de alguns clássicos. Bethânia acaba de lançar “Maricotinha”, com músicas de gente como Ana Carolina, Adriana Calcanhoto, Herbert Vianna entre outros. Há pouco tempo, a Gal declarou que não houve uma renovação de valores na MPB, compositores especificamente. Qual sua opinião sobre esse assunto?

M: Eu entendo o que ela quer dizer, porque ela é uma cantora que conviveu com Caetano, quando ele tinha grandes canções, com Gil, com Tom… É uma mulher que conviveu com grandes compositores e está acostumada com grandes canções. Hoje em dia tem grandes cantoras no Brasil, então se a Gal não gravar uma grande canção, ela vai ficar tipo a Marisa. Porque tem gente que canta muito bem ou tão bem quanto ela. Então o que vai, na cabeça da Gal, eu acho, mostrar que ela é uma “medalhona”, uma grande cantora, é uma canção como ela está acostumada. Eu acho que pintaram pessoas bacanas, mas, por exemplo: eu acho que tem pessoas que compõe bem e não cantam bem, mas cantam. E tem gente que canta bem e não compõe bem, mas compõe. Então, acho que a Gal quis dizer que hoje todo mundo canta. Os compositores gravam as próprias músicas. Paulinho Moska é muito bom compositor. Mas não é melhor que o Caetano e o Gil. E os dois são amigos dela, estão ali, mais perto para ela. Agora, eu acho que houve uma renovação sim, e a Maria Bethânia que é uma intérprete pode pegar e gravar uma música da Ana Carolina, da Adriana Calcanhoto, e está tudo certo para ela. Eu gosto de conceito musical, gosto de estilo. Adoro por exemplo a Marisa Monte cantando, mas não ouço o disco dela, muito. Aquela sonoridade não me interessa muito. Uma coisa de gosto mesmo. Eu tenho o direito. Tem um quê de Novos Baianos, tem um pouco do trabalho que o Caetano já fez uma época, um pouco do que a Gal já fez também. A Marisa Monte é uma grande cantora, e para mim o melhor disco dela é o primeiro, que o Nelson Motta produziu. Ela tem que cantar grandes canções. Eu acho legal ela estar compondo, mas ela como cantora está muito à frente do que ela compõe. Para mim, que estou interessada em som, eu quero o que seja a trilha sonora da minha vida, música me aquece. Posso até ouvir as coisas de uma maneira tipo analítica. Mas o que eu gosto de ouvir… O que eu agora estou ouvindo não é o disco da Marisa, por exemplo. Acho que ela canta pra caralho, mas a sonoridade não me interessa, e aí? Eu fico esperando para ver se vai ter um disco que eu vou gostar mais, entendeu? Mas não rola. Ana Carolina eu gostei do show, acho que ela canta bem, toca bem, mas o repertório do disco não é aquilo que eu gosto tanto de ouvir. Mas eu estou há anos aí, tenho o ouvido super depurado, sou exigente porque é disso que eu gosto e para mim, no Brasil, as coisas mais bacanas são as que vêm da periferia, é poder ouvir vozes novas, a voz do morro mesmo. Eu não conhecia, e entrei em contato por causa do “rap” e dessas coisas que aconteceram, por causa de muita gente corajosa, como o Xis, por exemplo. São pessoas que eu não ouvia. O resto é legal, mas eu acho que… Música requer muita humildade, sabe?

O: Você falou sobre algumas cantoras, a Cássia Eller era uma grande cantora?

M: A Cássia tem uma puta voz, e eu ainda estou um pouco sob o impacto desse acontecimento que foi uma coisa inesperada e muito triste. Então qualquer coisa que eu diga agora será apenas lamentando a ausência dela aqui. Ela foi a vários shows meus e eu fui a vários shows dela. A coisa que eu mais gostei da Cássia cantando na vida foi a música do Renato, “Por Enquanto”. Para mim aquela é a grande obra prima! Ela tocando violão, a música, o jeito que ela cantou, é o que a Cássia vai deixar para sempre pra mim, aquela gravação é o ápice.

O: Como surgiu a trilha sonora que você fez, com Felipe Venâncio e o Suba, para o desfile da Fórum? Poderia virar um cd?

M: Poderia. Tem até uma coisa que eu fiz com o Suba que está saindo pela gravadora belga que lançou o cd da Bebel Gilberto. Mas isso foi o seguinte, um amigo meu, Giovani Bianco – que me vê criando em casa, feito cientista maluca -, falou com Tufi Duek: “Marina tinha que fazer a trilha porque os sons que eu mais estou gostando de ouvir, eu estou ouvindo na casa dela”. Ele tinha ido lá em casa e eu mostrei para ele, no computador, “Pierrot”. Eu tinha colocado a guitarra, meu computador tem uma entrada para áudio, e gravei o baixo do Edu também. Ele achou aquilo maravilhoso. Aí o Tufi me chamou. Foi a primeira vez que me chamaram para fazer uma trilha, foi um desafio. Fui para São Paulo e chamei o Suba, eu ainda não dominava aquela linguagem e tinha acabado de trabalhar com ele no “Pierrot do Brasil”, então estávamos muito ligados. Aí o Giovani falou assim: “olha, tem um DJ, o Felipe e tal…” Eu falei: “CHAMA! E vamos já fazer”. Ficamos eu, Suba e o Felipe uns três dias lá, “internados” no estúdio em São Paulo e criamos aquilo. Tinha uma parte que era uma música que eu tinha feito com o Suba, quando entram uns clarinetes (cantarola um trecho), uma parte do arranjo que a gente tinha feito na minha casa, e o Felipe entrou com o “timing” dele de DJ. Foi uma mistura bacana e uma experiência muito boa para mim.

O: Embora seja um formato diferente do que você está explorando agora, você planeja fazer um acústico?

M: Deixa eu te falar um negócio? É engraçado, você vê: Kurt Cobain se matou. Ele achava que o trabalho dele tinha se diluído, e dali em diante só ia continuar a se diluir. Algumas pessoas morreram, pessoas muito fortes, e tal. Eu fiquei muito mal de cabeça, achei que estava ficando doente. Fiquei, mas não fiquei com um câncer, não me matei, entendeu? Entendi que estava mal, parei e consegui recuperar uma coisa musical. Que é uma crença numa música que eu ouço na minha cabeça, e que eu tento o tempo inteiro mostrar pros outros. “To ouvindo isso aqui…” Então eu posso até vir a fazer um acústico. Se eu achar que vai ficar bonito, faço. Porque agora, tudo que eu tinha dúvida (“se minha música tinha importância, se ela tinha lugar”), eu descobri que sou querida mesmo, as pessoas gostam e eu acho que posso, com o trabalho de hoje em dia junto com o antigo, abrir o “espectro” de novo da música brasileira, e tornar esse tipo de trabalho, popular. A coisa que se barateou, porque o país ficou mais pobre, e é natural que aconteça, eu acho que com jeito eu posso tentar elevar o nível de novo. Para mim a minha missão agora é essa, então eu posso até vir a fazer um acústico. Tranqüilamente.

O: Como é a sua relação com a internet?

M: Primeiro é com o computador, eu trabalho com computador direto. Em música ele vira um gravador, de milhões de canais digitais. Então é uma maravilha, é como ter um estúdio em casa, você pode gravar 40 canais. Tem um som perfeito digital, ainda pode colocar áudio, gravar voz, tudo em casa. Por isso não me sobra tanto tempo para viajar na internet. Logo que chegou a internet, eu fiquei louca, mas depois comecei a ver que eu tinha uma relação meio de controle remoto. Quando eu ia ver, estava há horas vendo uma coisa só de curiosidade, enquanto tinha coisas efetivas para fazer. Então eu uso para e-mail, e acesso uma ou outra coisa mas não fico muito tempo.

O: Você acompanha o fórum do seu site?

M: Acompanho. Não acompanhava não, mas um dia uma fã me ligou dizendo que eu tinha que entrar porque tinha uma mulher fazendo horrores e tal, aí eu entrei, vi, e passei a acompanhar e responder algumas mensagens. E eu entrei, na semana do carnaval que eu fiquei de folga, no meu site, pela primeira vez depois que ele ficou pronto. Fiquei uma hora olhando, checando tudo e entrei no fórum. E foi muito bacana ter entrado no fórum. Comecei a pensar que por causa de algumas mensagens que tinham ali no fórum eu vou acrescentar algumas informações no site.

O: Hoje por acaso eu descobri, via fórum, um site muito legal feito em sua homenagem, Encanto de Marina…

M: É! Tem um cara, Welbert… Mas é uma loucura, assim, esse site tem tudo (risos)! Não é nada oficial, ele tem fotos minhas de coisas que eu nem imagino. Um fã desde o começo, que cortou revistas, e tem muita coisa.

O: Você tem uma posição com relação à maconha, tipo legalização ou descriminação?

M: Tenho. Sou a favor da descriminação da maconha. Eu fico pensando assim, antigamente nos Estados Unidos o álcool era proibido pela Lei Seca. Porque hoje em dia o álcool pode ser vendido, o cigarro pode, e o fumo não? O álcool em cada pessoa tem um efeito, e para mim a maconha é tão “inofensiva” quanto o álcool. Então qual o critério de proibição? Não sei qual é. Isso é uma questão do primeiro mundo, Holanda, Inglaterra, Suécia… Mas o Brasil é um país de primeiro mundo em tantas coisas, na música, na medicina e em várias questões. Já temos tantos problemas de criminalidade, que eu acho que está na hora de ver isso.

O: Qual você considera o maior impedimento para que a sociedade evolua nas questões que cercam relações homossexuais no Brasil?

M: Sabe o que acontece? Culpa. O Shoppenhauer diz assim: “a morte é a mãe da religião”. Quando o homem descobriu que morria, criou a religião, porque ele tinha medo, né? Para poder meio que se acalentar e tal. Isso podia ser uma coisa até bacana, meio simbólica, mas as pessoas que querem poder, criam milhões de coisas. A religião em si, a filosofia cristã de fraternidade, tudo isso é muito bacana. A questão religiosa é que é complicada, quando se criam igrejas, quando tem dinheiro envolvido, aí fica uma merda. Porque as pessoas usam a religião para manipular, para meter culpa nas pessoas, para as pessoas terem grilo de tudo que elas sentem, porque elas ficam ali cordeirinhas e subordinadas a uma coisa maior que diz que isso não pode, senão é castigado e tal. Eu acho que essa é a questão, a religião é que impede, que mete medo e culpa nas pessoas. Se o cara não tem como estudar, não tem uma situação econômica e uma política social bacanas no país, se torna uma pessoa ignorante, facilmente manipulável e acaba sem saída. Por isso é tão importante a instrução, uma questão do primeiro mundo, para que as pessoas descubram o que é melhor para elas. As questões individuais, se você não estuda, não pode saber, tem que ir junto com o gado, acreditar no que te dizem. A questão moral, religiosa.

O: Agora eu queria que Marina Lima definisse Marina Lima.

M: Olha, sou uma mulher animada. Estou animada. Tenho vivido algumas coisas, tenho visto poucas e boas e acredito na vida. O que a gente não pode perder é a crença nas coisas, as coisas que são importantes para cada um. Acredito nas coisas, acredito na vida, acredito nos meus amigos, nos meus bichos, na boa fé das pessoas. Acho que as coisas bacanas vão vencer e eu estou aí para batalhar e eu acho que vai dar pé.