Edney Silvestre entrevista Marina Lima

(RJTV – 1ª Edição / TV Globo / Rio de Janeiro)

Hoje o ‘bate-papo’ traz para você uma pessoa de grande qualidade artística, e também uma mulher guerreira, que esteve no inferno e voltou. Ela venceu a depressão, venceu um problema que muitos disseram que ia acabar com a carreira de grande sucesso, e está novamente nos palcos, mais segura e mais madura: é a cantora e compositora Marina Lima.” (por Edney Silvestre)

DEPRESSÃO

Edney Silvestre: Marina, o que aconteceu primeiro, a perda da voz ou a depressão?

Marina Lima: O que aconteceu foi uma crise existencial que culminou com uma depressão.

E: E a voz?

M: A voz eu acho que faz parte, porque, na realidade, eu precisava me encolher, mas não tinha coragem de dizer “não” a essa demanda externa. Era uma coisa de muito prestígio, muito show marcado, e querendo muito me encolher. Eu estava que nem o Gilberto Gil, “querendo falar com Deus”, ir para um outro lugar, me isolar, me olhar um pouco, e o começo da minha carreira. De alguma forma, o meu inconsciente, muito inteligentemente, me calou. E eu não prossegui, porque estaria traindo o meu público. Eu estaria cantando e falando coisas que eu não estava acreditando.

E: Você não ficou com medo que a sua carreira acabasse?

M: Tem uma frase que é a seguinte: “o desespero é a radicalização da dúvida” (risos). Então, eu entrei em desespero, porque eu vivo de música também, esse é o meu ofício, o meu ganha pão. Mas você sabe que foi bom? Por que eu não nasci na celebridade, eu nasci uma mulher, e fui descobrindo esse dom com os anos. E depois de 20 anos na carreira, sem nunca interromper, eu não sabia mais se era isso. Continuar só para não perder o lugar, para manter, não dava, era uma traição para mim. Tem que ser verdadeiro o negócio. A minha voz, o que eu canto, é realmente o espelho da minha alma. Eu não sou um clone de mim mesma. Eu tive que parar, o meu corpo, inconscientemente, me fez parar. Eu não tive nada na voz, nenhum calo, nada disso.

E: Não houve cirurgia?

M: Não houve nada. Era depressão mesmo. Quando você descobre que é depressão, é muito mais fácil de tratar. O problema é saber que esse é o problema. Começa com uma melancolia, uma tristeza, e quando vê, você cai num buraco, onde fica meio espectador de si próprio. Você fica de fora, e não tem forças para reagir. Por isso é que precisa de um médico para ajudar.

CORAÇÃO CARIOCA

E: O teu coração está bem amparado nesse momento?

M: Eu estou feliz. Eu me sinto com coragem. Você sabe que, na vida, é muito fácil a gente ficar ali sem correr riscos. Fica ali, vendo a vida passar, tudo é muito interessante. Agora, correr riscos, sentir a emoção, bancar a intensidade das coisas é difícil. Eu estou aberta para esse jogo. É difícil estar feliz o tempo inteiro, mas estou me sentindo muito viva, com muita coragem, e isso dá um “tcham” nas coisas. É muito bacana.

E: Aqui no Rio, você está também de certa forma voltando à carreira. O que há de tão especial no público do Rio e no Rio de Janeiro para você?

M: Eu sou carioca, né? E como você, vivi anos fora, em Nova York e Washington, fiquei oito anos fora. O mundo inteiro pode ser vivo, ter grana, ter charme… Mas eu não sei que diabos tem esse país (Brasil), e essa cidade (Rio), que acima de tudo você tem orgulho dela, e quer afirmar a todo instante. Eu adoro o Rio, e não consigo morar muito tempo fora daqui. Eu passo muito tempo em São Paulo… Mas estando no Brasil, é tudo meu, do Porto Seguro ao Rio de Janeiro…

GÊNERO MUSICAL 

E: Te chamam de rockeira, outros definem você como a melhor ponte entre MPB e o Rock. Como você se vê?

M: Meu nome é Marina Corrêa Lima, eu sou botafoguense, e vivo de música, com muito prazer. Eu adoro chocolate, torta de limão, brigadeiro, e torta amanteigada na cama. Gosto de qualquer gênero musical, o que eu aprecio são boas composições, boas compositoras, bons cantores. Se for uma boa canção, e eu não tiver feito, não for de minha autoria (risos) eu quero torná-la minha. É que eu gosto de compor. Para mim, criar uma coisa que não existe, tentar traduzir o inconsciente coletivo em uma canção popular. Isso é como uma corrida de Fórmula 1, para os corredores. Eu compus um samba agora. Costume, palma, gingado, a sabedoria, a inteligência da alma, o samba ta nisso, está lá, é importante.

DISCO NOVO

E: No show que você abre hoje no Canecão, você vai cantar o samba e o que mais?

M: Vou cantar samba, e o repertório todo.

CARREIRA

E: São quase três décadas de carreira, desde 1979, no Teatro Ipanema…  O que você acha que mudou mais na sua vida pessoal, na sua carreira, nesses 30 anos?

M: Há 24 anos começou a minha carreira. Acho que a experiência, envelhecer é bom. Eu acho que vivi muito bem os meus 20, 30 anos, foram muito intensos. Teve o irracional, teve o lúdico, foi muito legal. O importante é estudar teclado, piano, violão, estudar música, alimentar o meu dom. E contar com isso, com o conhecimento, com a decoração. A vida tem graça assim. Eu sou mais feliz hoje em dia do que antigamente.

MARINA HOJE

Quem é Marina Lima hoje? Instinto, futuro da carreira, Marina abre o jogo e revela-se uma andarilha nata.

E: Para onde o seu instinto está apontando agora e para os próximos 46 anos?

M: É uma margem muito grande, mas para os próximos quatro anos, eu quero cantar para o povo do Brasil.